Hoje de manhã
quando estava saindo à caminhada matinal, aconteceu
uma coisa muito interessante em plena luz do dia.
Estava caminhando,
como sempre faço onde mato dois coelhos ao mesmo
tempo: um é a caminhada de dois quilômetros
para manter a saúde, outro é para despachar
as encomendas no correio. Em vez de tomar ônibus que
tem cerca de três pontos eu faço questão
de caminhar até o Shopping onde há um correio.
Uns 300 metros
adiante iam duas pessoas também caminhando apressadamente.
Pareciam-nas que iam ao trabalho. De súbito, uma
delas deixou cair uma cédula, mas continuou a caminhar
em direção à estação
do metrô Glória. Imediatamente a chamei: “Ei,
moça, moça, moça...”.
Todavia, ela
apenas me olhou, aliás, me encarou e rapidamente
continuou o seu caminho. Um motorista de táxi assistia
à cena e sorriu para mim. Catei a cédula antes
que o vento a levasse. Era uma nota de cinqüenta reais.
Sai correndo, insistindo em chamá-la: “Moça,
moça, moça”, mas nada de ela olhar novamente
para mim, pelo contrário, começou a andar
mais rápido ainda. Nisso estava vindo um rapaz em
minha direção e logo percebeu que eu queria
entregar alguma coisa para moça. Então, ele
fez o sinal e a moça parou e me viu com mais calma,
mas ainda me encarando. Nessa altura eu já estava
quase sem respiração, tossindo muito porque
tinha pegado uma gripe na semana passada e ainda minha garganta
doía muito. Eu falei com uma voz abafada, meio rouca:
“Moça, você deixou cair isso”.E
lhe entreguei a cédula.
Ela ficou tão surpresa, até assustada e apavorada,
mas logo a seguir me agradeceu muito. A sua expressão
já era mais tranqüila e desceu correndo a escadaria
do metrô.
Talvez ela
tivesse pensado que eu fosse uma vendedora ambulante por
chamá-la insistentemente, pois corria atrás
dela, ou uma senhora já de idade “estrangeira”
querendo pedir informações ou até uma
mendiga simpática, tentando pedir uma caridade. Só
me lembro que foi assustadora a maneira pela qual ela se
esquivava de mim por mais que eu a chamasse e a seguisse.
Realmente,
não há dúvida de que a cidade do Rio
de Janeiro está cada vez mais insegura, perigosa
e, sobretudo violenta. Por essa razão, certamente
essa moça não atendeu o meu chamamento, pois
ela, representando a cidadã carioca, já não
ouve, não confia, não sorri e não conversa
com os transeuntes como antigamente.
Fiquei profundamente
triste pelo acontecimento, entretanto ao mesmo tempo, fiquei
feliz naquela manhã pelo fato de ter praticado uma
boa ação logo de manhã cedo. Parecia
que o sol estava brilhando para mim.
Eu moro aqui
no Rio, há 35 anos e sempre penso e pensei em viver
honestamente, testando a própria capacidade, demonstrando
amor e carinho mesmo que ao redor, eu sinta e veja a olho
nu, tanta corrupção, tanta maldade, tantos
assaltos e tantas desonestidades, não pretendo imitar
nenhum desses atos porque tenho orgulho de ser brasileira
e no meu coração existe toda a gama de educação
que recebi dos meus pais que foram imigrantes japoneses
trabalhadores, honestos que apesar de terem passado por
muitas dificuldades, jamais prejudicaram seus semelhantes.
Graças a essa semente que eles plantaram no solo
brasileiro, os seus descendentes nisseis, sanseis, yonseis,
têm mais livre acesso, mais confiança e boas
oportunidades na sociedade brasileira. E eu gostaria de
continuar vivendo assim: com honestidade como se fosse a
representante do povo japonês aqui no Rio de Janeiro.
Ainda mais nessa época de carnaval onde muitos turistas
japoneses estão chegando, eu desejo ardentemente
que todos eles aproveitem bem, “curtam” a cidade
maravilhosa e que sejam bem recebidos, bem quistos pelos
cariocas. E pelo contrário, tomara que esses jovens
japoneses recém chegados do Japão não
sejam vistos como desonestos que continuem demonstrando
a sua honestidade com o espírito de um Samurai.
Para terminar,
a palavra honestidade, SHOUJIKI, se escreve com dois ideogramas
sendo que o primeiro é de correto, TADASHII e o segundo
de consertar imediatamente, TADACHI NI NAOSU, logo literalmente,
HONESTIDADE significa “consertar imediatamente para
tornar correto”. Juntando os dois ideogramas leiam
pela leitura “on-yomi” que dá a palavra
SHOUJIKI.