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HUMILDADE E CERIMÔNIA.

(por Rosa T. Sonoo)


POR QUE OS JAPONESES APARENTAM MAIS HUMILDES E CERIMONIOSOS?

Aparentam não! Eles são.

Tanto os japoneses quanto seus descendentes, nissei, sansei são mais humildes e cerimoniosos, até tímidos, devido a própria nomenclatura da língua japonesa estar embutida no seu conjunto de processos e fatos psíquicos latentes que influenciam sua conduta e facilmente afloram à consciência. Mesmo para os nisseis, sanseis que não aprenderam falar o idioma japonês, através da educação milenar que receberam dos seus avós ou dos seus pais, no seu afeto recalcado está depositado toda a gama da cultura japonesa. E cultura é língua!

Os alunos brasileiros que aprofundam o estudo da língua japonesa cada vez mais, ou aqueles que já viveram no Japão, têm essa plena compreensão e a mudança se transborda no seu comportamento do dia a dia. Tornam-se mais humildes justamente para elevar a posição do ouvinte, são mais cerimoniosos porque aguardam a sua vez de falar ou fazer e até mais tímidos em virtude de saberem se controlar não sendo extravagantes no seu modo de agir e de se expressar, não se auto elogiam, esperam que os terceiros valorizem seus atos. Tudo isso é proveniente da gramática japonesa.

Destacando aqui, apenas como exemplo, há quatro linguagens honoríficas japonesas dentro de um verbo:

01) Sonkei-go: quando o falante expressa o máximo de respeito com quem sem fala e de quem se fala.

02) Kenjou-go: quando o falante demonstra humildade para elevar a pessoa com quem se fala. Não é aquela humildade de ser humilhado, mas sim, ser humilde para justamente dar mais espaço e consideração ao ouvinte.

03) Teinei-go: quando não há necessidade da interferência de sonkei-go ou de kenjou-go, utiliza-se esta linguagem para expressar educação, polidez.

04) Bika-go:
  a) quando apenas “enfeita” a palavra adicionando os prefixos “o” de origem japonesa, ou “go” de origem chinesa. Exemplo: o+kane= okane, dinheiro. Go+han, arroz cozido.
  b) quando a palavra é expressa com respeito. Exemplo: o+tou-san= otou-san, pai de alguém ou ao chamar o próprio pai. Go+shujin= goshujin, marido de alguém.

Vamos colocar as três primeiras linguagens acima em prática. Em português, como exemplo, o verbo “estar” é expresso sem nenhuma diferença. Em qualquer ocasião será “estar”.
Entretanto, veja o que acontece no japonês:
Eu estou = orimasu = humilde
Você está = irasshaimasu = respeitoso
Nós estamos = imasu = polido

Além dessas três modalidades, há mais uma para deixar os alunos “doidos”. Trata-se da expressão reduzida ou informal (futsuu-tai) que é utilizada freqüentemente, todo dia, toda hora dentre amigos mais chegados. Exemplo: estou, está, estamos, estão = iru.

Assim, o único verbo em português “estar”, em japonês foi exprimido em quatro aspectos. Por essa razão, tal como a gramática japonesa assim os exige, o povo japonês se expressa no dia a dia, ora com muito respeito aos terceiros, ora com muita humildade para si e ora sem cerimônia entre amigos, o que não acontece com no idioma português.

Há muitos alunos brasileiros que estudam o japonês e “choram”, dizendo:
Professora, eu estudo japonês e não consigo entender animé, manga e o bate-papo dos japoneses. Por que?

Se o professor for ensinar o japonês, começando pela forma reduzida ou informal, sem antes abordar àquelas 4 modalidades, haverá o risco de o aluno cometer um grande erro durante uma conversação, como por exemplo, numa reunião, num cocktail, onde estivessem presentes vários níveis de pessoas: ministros, seu chefe direto, sua namorada, seus amigos.... como é que ele manteria o diálogo com as respectivas pessoas??

Ensinar a forma reduzida ou informal, até facilitaria o professor, pois é tão reduzida que seria fácil para o aluno decorar. E também, qualquer pessoa que fale o japonês, sem que tenha nenhum conhecimento da gramática poderá ensinar. E o aluno iria vibrar: “Que manero, já estou falando o japonês!!” Mas, este passaria por um grande vexame pelo fato de só saber expressar-se informalmente.

Aconteceu um fato, numa festa de fim de ano na residência do cônsul japonês. Um carioca da gema, pegou o cônsul e “lançou” o japonês informal, o único que tinha aprendido de um professor despreparado.
O Cônsul ficou apavorado, talvez até um pouco ofendido e quis saber porque este brasileiro não aprendeu primeiro, pelo menos, a forma polida.

Houve outro fato: um brasileiro, engenheiro que foi a serviço da empresa ao Japão. Durante o serviço, não houve problemas de línguas porque ele se comunicava em inglês. À noite, ele freqüentava boates, discotecas e acabou aprendendo japonês com bichas japonesas e garotas de programa. Após 1 ano, ele voltou e quis aperfeiçoar o japonês. Veio no meu curso, matriculou-se. Todavia, para tirar o seu vício de linguagem não foi fácil... Ele falava fluentemente, exatamente como uma bicha amiga sem que ele soubesse as variações da linguagem japonesa corretamente.

Portanto, continuem estudando o japonês correto para aproximar-se da cultura japonesa e saibam entender por que eles “aparentam” tão humildes ou cerimoniosos.

E para as pessoas que são casadas, ou simplesmente “estão” com descendentes de japonêses, saibam um pouco mais sobre a cultura milenar do Japão que o seu parceiro (ou a sua parceira) carrega no berço do subconsciente a fim de evitar um choque cultural ou um “choque familiar”.

Descobrir e conhecer essas nuances da cultura de um povo abre as portas para um relacionamento cheio de vida, um relacionamento respeitoso, agradável e mágico...


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