(por Rosa T. Sonoo)
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Maria das Dores, carinhosamente Madora, era nordestina cabra da peste que tinha vindo para o Rio a fim de procurar a sorte que era escasso na sua terra natal: Ceará.
Na época ela era linda, morena jambo, que se o Sargentelli a visse teria contratado para o show de zuriquidum, xikindó, burucutum para mostrar o que é que a cearense tinha, deixando as baianas arrasadas.
Madora conheceu um nissei (filho de descendência japonesa) bem brasileiro que não perdia um forró, nem carnaval, mas havia no seu subconsciente toda aquela gama de cultura e costume milenar do Japão que seus pais haviam trazidos e plantados no solo brasileiro.
Numa noite de carnaval, Madora conheceu o nissei Kaitiro. Sambou, transou e ficou grávida. Foi tudo muito rápido como transa do galo e da galinha. QUE QUE QUÉ, QUE QUÉRO E PRONTO. Kaitiro, com a educação oriental que tinha, assumiu de imediato. Lá iam eles caminhando pelo corredor da Igreja, ao som da Aaaaave Mariiiiia para receber a benção do padre que os esperavam no altar. Madora, de véu e grinalda, arrastando o vestido branco longo que dava para limpar todo o corredor empoeirado e segurando o buque de flores naturais sobre a cintura, num ângulo um pouco mais baixo para esconder a barriga de 5 meses.
No Japão tradicional, o casamento também era muito rápido. Mas só que o casal transava após a cerimônia do "SAN-SAN-KUDOU". O nome não é tão aconchegante, porque ouvindo isso o noivo deve ficar muito nervoso, mas esse termo "san-san-kudou" é uma cerimônia que se realiza num templo dos xintoístas onde a noiva toma três vezes o saquê e o noivo também toma três vezes na mesma taça, daí a repetição do número 3 que em japonês se diz "SAN". Os nubentes seguem esse ritual para declarar ao Deus Xinto que serão sinceros um ao outro como a sinceridade do saquê que é feito só de arroz fermentado e água, que serão fortes como o saquê, que dividirão a alegria e a tristeza como o saquê que se toma nessas duas ocasiões. Após os nubentes, o mesmo ritual segue entre as famílias e os parentes. Haja saquê minha gente!
Quando um certo amigo, que se chama "NAKOUDO", que seria o padrinho de casamento, apresentava um rapaz e uma moça aos seus respectivos pais, o casamento já estava praticamente realizado. A noiva ia ver a cara do noivo só no dia seguinte do casamento, pois a transa era feita na escuridão entre quatro paredes. E durante a cerimônia? Durante a cerimônia do "san-san-kudou", a noiva costuma-se vestir de quimono branco com linhas vermelhas e douradas, representando as cores da religião xintoísta. Na fronte da cabeça coloca-se "TSUNO KAKUSHI" que é uma espécie de grinalda aqui entre nós, mas que lá é um meio chapéu, branco, engomado que segundo a tradição japonesa é para esconder "os chifres" que a moça virgem carrega. Segundo a lenda, que minha mãe contava, no decorrer da vida de casado, dia após dia, mês após mês, o chifre ia desaparecendo tanto quanto se dedicava ao marido. E esse "TSUNO KAKUSHI", "a grinalda", cobria quase todo os olhos da noiva que mal podia ver a cara do noivo na hora da cerimônia.
Na época da minha mãe, ainda se casava assim rapidamente. E nascia filho atrás do outro. Minha mãe teve 11!! Eta cabra da peste!
Madora, após ter se casado com Kaitiro, numa velocidade incrível quis saber sobre a cultura e o costume do Japão. Eu, como sou professora de língua japonesa, dava-lhe apoio no que era possível mas era tanta informação ao mesmo tempo que tudo se confundia na cabeça da Madora.
Certa noite, Madora convidou-me para um jantar na casa dela. Dizia ela que era um jantar bem japonês. A mesa já estava toda arrumada. Deparei-me com o arroz branco japonês cozido já servido nas 8 tigelas conforme era o número de convidados. Haviam 16 HASHI's (oito pares de palito longo feito de bambu para se servir) enfiados dois de cada sobre o arroz da tigela.
Madora disse-me que os colocou assim porque não sabia onde ajeitar tantos palitos na mesa. Para mim aquilo pareceu um cemitério no sétimo dia de missa aos 8 defuntos - aquela era a forma pelo qual os japoneses oferecem o arroz aos mortos para que não sintam fome e os "HASHI's" em pé sobre o arroz é para servir de bengala para longa caminhada que se inicia. Antes que os demais convidados chegassem, refizemos a mesa rapidamente. Esvaziamos as tigelas, colocamos o arroz cozido numa forma com tampa para não esfriar, deixando-a no canto da mesa, a tigela ao lado esquerdo dos pires para o convidado pegá-la com a mão esquerda. Come-se o arroz, segurando a tigela com a mão esquerda. O par de "HASHI" é colocado, deitado em frente à tigela, rente ao convidado, com as pontas viradas para o lado esquerdo de modo que possa pegá-lo com a mão direita. Costuma-se deixar sob as pontas do "HASHI" um pequeno peso trabalhado em cerâmica, o "HASHI OKI", para que suas pontas não encostem na mesa ou sujem a toalha de mesa. Em português diria PORTA HASHI.
Madora teve 2 filhos, engordou 40 quilos, detesta comida japonesa e o seu casamento acabou num quebra-quebra, caindo Tiro pra cá, caindo Tiro pra lá, um tal de cai Kaitiro que não tinha mais fim. Foi o choque cultural.
Após a vinda do povo japonês em 1908 aqui no Brasil, como imigrante, hoje é muito comum uma brasileira nata apaixonar-se por um descendente de japonês ou vice-versa, mas para que não haja choque cultural, deveriam conhecer profundamente ambos os costumes e depois se casarem para aproveitarem as duas maravilhosas culturas e costumes. Tudo que é bom aproveita-se. Tudo que é ruim joga-se fora.
N.R.: Qualquer semelhança com fatos reais é pura intenção...